Expiação Limitada

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Por Leonardo Dâmaso

Texto base: Rm 5.8-11

Introdução

Expiação limitada é o terceiro dos 5 pontos do calvinismo, e é uma doutrina que se desenvolveu especificamente na tradição reformada. Ao contrário do que muitos pensam, não foi Calvino quem escreveu esta linha doutrinária. Os 5 pontos do calvinismo são apenas uma parte, e não um resumo de toda a doutrina de Calvino baseada nas Escrituras.

Estes 5 pontos foram elaborados somente 54 anos após a sua morte (1509-1564) pelo Sínodo de Dort, “composto de 84 teólogos, 18 representantes seculares, 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro de 1618 até maio de 1619”.1


Contudo, o objetivo de se ter formulado os 5 pontos do Calvinismo era de responder e questionar o documento apresentado pelos “discípulos do professor reformado de um seminário holandês chamado Jacob Arminius (1560-1600), que tinha sérias dúvidas quanto à graça soberana de Deus, visto que era inclinado aos ensinos de Pelágio e Erasmo, no que se refere à livre vontade do homem”.2

No entanto, os alunos de Arminius que formularam este documento (os 5 pontos do arminianismo) tinham em mente mudar os símbolos oficiais das doutrinas das Igrejas da Holanda, que se apoiavam na Confissão Belga e no Catecismo de Heidelberg, substituindo assim pelos ensinos de Arminius. Em contra partida, a razão pela qual os 5 Pontos do Calvinismo foram elaborados.

Todavia, a doutrina da expiação limitada salienta a obra da redenção realizada por Cristo através de sua morte na cruz. Não obstante, Jesus se ofereceu como o único e perfeito sacrifício pelos pecados para satisfazer a justiça de Deus, sofrendo a ira divina, tornando-se maldição e morrendo no lugar de pecadores. Em suma, é “a obra que Cristo realizou em sua vida e morte para obter nossa salvação”.3

Esta doutrina também tem como base a doutrina da predestinação, onde se diz que, desde toda a eternidade, antes do mundo vir a existir, e antes que houvesse a queda, Deus escolheu para si um número limitado de pessoas para salvar (Ap 5.9), enquanto o restante é “entregue” aos seus próprios pecados e, por fim, como punição pela desobediência ao Senhor a morte eterna (Rm 1.18-21, 24-32; 6.23).

“A palavra expiação é usada muitas vezes no Antigo Testamento. Além de ser um termo teológico muito incomum”4, significa um “ato ou efeito de expiar; o cumprimento da pena ou castigo que se reputa equivalente à culpa ou delito de alguém.

Significa remir culpas ou delitos pelo cumprimento de pena; ou seja, sofrer as consequências de alguém, cumprir a pena que reabilita uma pessoa, e por fim, purificar”.5 Vejamos uma ilustração como exemplo que elucida esta verdade sobre a expiação:

“Se um homem não pode pagar uma dívida que tem com o banco, mas se um amigo voluntariamente paga esta dívida por ele, então, esta dívida é coberta e o homem está livre de toda obrigação. Esta é a idéia da expiação”6 e literalmente o que Cristo Jesus fez pelos seus escolhidos na obra da redenção pagando a dívida que tínhamos com Deus.

Explanação

Para que possamos compreender de forma crível todo o conteúdo que compõe a doutrina da expiação limitada, precisamos saber em:

1. O motivo da expiação

Qual foi a razão que levou a Cristo se abdicar de toda a sua glória, vindo a este mundo em forma de homem, nascer do ventre de uma mulher tendo de passar por todo o processo de nascimento, crescimento e desenvolvimento humano e sofrer todas as nossas limitações, fraquezas e tentações que nos assolam, ser perseguido, maltratado e, por fim, morto?

“Por qual motivo Deus operou deste modo para realizar seu fim e cumprir seu propósito? Por que o sacrifício do filho de Deus? Por que, ao morrer, morreu a morte maldita da cruz”? 7

Indubitavelmente, o motivo da expiação foi “afetar a relação de Deus com o pecador, o estado e a condição de Cristo como o Autor Mediatário da salvação, e o estado e a condição do pecador”.8 Contudo, o motivo da expiação é caracterizado por estes 2 pilares:

a) O imensurável amor de Deus.

Podemos ver o amor de Deus explícito como a fonte da expiação nesta passagem em pauta:

João 3.16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Esta passagem denota o quão grande amor Deus teve para com o “mundo perverso e pecador”.9 A expressão de tal maneira não se encontra no grego, mas podemos entender não somente por essa passagem, mas por todo o Novo Testamento, especificamente sobre os textos que abarcam a missão de Jesus, a intensidade do amor de Deus.

O amor de Deus é algo que não se pode medir. A atitude de dar o seu único filho para morrer no lugar e em favor de pecadores (Rm 5.8), para que aqueles que acreditarem em Cristo como o salvador e filho de Deus não serem condenados à morte eterna, mas terem a vida eterna é tremendo!

b) A Sua justiça.

Além do amor de Deus ser o motivo da expiação (Jo 3.16; Ef 2.4), todavia, a justiça de Deus também faz parte deste epítome. A justiça de Deus requeria que Ele “encontrasse o meio para que a penalidade por causa dos nossos pecados fosse paga. Deus não poderia nos aceitar em comunhão consigo mesmo a menos que a penalidade fosse paga.”10

Esta foi à razão pela qual Deus enviou a Cristo para fazer a propiciação. O sacrifício que aplacaria a ira de Deus contra nós por termos ofendido a sua santidade pelos nossos pecados foi transferido para Jesus. Nós que merecíamos todo o sofrimento que Cristo passou a cruz e por fim a morte (Ez 18.4; Rm 6.23). 

Porém, o Senhor se fez maldito por nós sendo imputado sobre si os nossos pecados, suportando a ira de Deus e morrendo na cruz derramando o seu sangue carmesim para que Deus se tornasse propício em nosso favor. Fomos reconciliados com Deus para termos comunhão com o Senhor mediante Cristo pelo Espírito Santo e glorificá-lo em toda a nossa vida.

Romanos 3.25-26 – A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impune os pecados anteriormente cometidos; Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Na versão da NBV podemos entender melhor o que Paulo quis dizer nessa passagem. Senão vejamos:

Romanos 3.25-26 – “Deus foi quem enviou a Cristo Jesus para levar o castigo pelos nossos pecados, e assim pôr fim à ira de Deus contra nós. Ele usou o seu sangue para, mediante a fé, nos salvar da sua ira. Deste modo, Ele foi justo, mesmo não tendo castigado aqueles que pecaram em tempos passados. Isto porque aguardava a chegada do dia quando Cristo viria e apagaria os pecados anteriormente cometidos”.11 (veja Rm 5.9-11).

2. A necessidade da expiação

Será que não haveria outra forma de Deus salvar a humanidade sem a necessidade da expiação? Era realmente preciso Jesus morrer em nosso lugar?

Indubitavelmente, sabemos pela doutrina da eleição incondicional, o segundo ponto do calvinismo, que o homem não escolhe se voltar para Deus através do seu livre arbítrio, mas é Deus que escolhe salvar quem Ele quiser pela sua “livre e soberana graça”12 independentemente das obras (Ef 2.8; Jo 6.44; 10.24-28; 15.16; 17.6-9,20).

“Contudo, salvar homens perdidos não era necessidade absoluta, mas bondade soberana de Deus”.13 “Portanto, a expiação não foi absolutamente necessária, mas, como conseqüência da determinação de Deus de salvar pessoas, a expiação tornou-se absolutamente necessária”.14 Esta é a visão da expiação chamada de necessidade absoluta.

No entanto, como Deus não era obrigado abrir a porta da salvação a ninguém, devido à necessidade absoluta, a expiação se tornou necessária. “Uma vez que foi proposta, a salvação deveria ser assegurada por meio da satisfação que poderia ser conquistada somente pelo sacrifício substitutivo e pela redenção comprada pelo sangue”.15

Heber Carlos de campos complementa esta verdade acerca da necessidade absoluta dizendo que em Hebreus 2.17 Cristo “teve que experimentar as coisas próprias de um ser humano, ou seja, limitações, fraquezas e tentações.

Ele teve de sofrer para entender as coisas relativas à misericórdia e tinha de ser fiel para ser um sumo sacerdote perfeito. Para que isso viesse acontecer, o redentor teve de passar por um processo de aprendizagem”.16 Também em hebreus é mencionado que é impossível que o sangue de touros e bodes remova pecados (referência aos rituais de purificação do AT) (10.4) e que um sacrifício superior é requerido (9.23).  

Conclui-se, então, que somente o sacrifício de Cristo é eficaz para aniquilar completamente o pecado (9.26), e que não havia outro modo pelo qual Deus pudesse salvar pessoas a não ser pela morte de Jesus em nosso lugar.

3. A natureza da expiação

Acerca deste tema, que trata de forma indelével sobre a obediência de Cristo, que é descrita como obediência ativa e passiva, veremos que nestes 2 aspectos estão inseridos “as categorias mais especificas com que as Escrituras apresentam a obra expiatória de Cristo, que são sacrifício, propiciação, reconciliação e redenção”.17

John Murray corrobora que “a distinção entre a obediência ativa e passiva não é a despeito de tempos.

Deve-se descrever toda a obra de obediência de nosso Senhor em cada fase e período, como ativa e passiva, e deve-se evitar o engano de pensar que a obediência ativa se aplica em sua vida, enquanto a obediência passiva em seu sofrimento final e morte. O uso e o propósito legítimos dessa fórmula servem para enfatizar 2 aspectos da obediência vicária de Nosso Senhor”.18 Senão vejamos:  

a) A obediência ativa

Este termo trata especificamente sobre a obediência de Cristo por nós. Como é impossível para o homem obedecer totalmente a Deus, Jesus teve de viver durante toda a sua vida aqui na terra em total obediência a lei de Deus em nosso favor (Fp 2.8), “de modo que os méritos positivos de sua obediência perfeita pudessem ser atribuídos a nós” 19 (Rm 5.19). Isso é o que chamamos de obediência ativa.

b) A obediência passiva
      
Este segundo termo ressalta que “Cristo tomou sobre si os sofrimentos necessários para pagar a penalidade pelos nossos pecados”,20 como havia sido profetizado em Isaías 53.3 sobre a vinda do Messias, o qual seria um homem de dores e experimentado no sofrimento. Hebreus 5.8-9 diz-nos que mesmo sendo Filho, aprendeu a obediência por aquilo que padeceu. E tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem.

Os sofrimentos durante toda a vida de Jesus como fraquezas, limitações, tentações, rejeição e oposição dos homens, a dor psicológica de suportar o pecado e a culpa como se Ele mesmo pecasse, a dor física da crucificação, o abandono do Pai na cruz, a dor de suportar a ira de Deus contra o pecado e o pecador e por fim a morte, é que fizeram de Jesus o perfeito salvador.

Por outro lado, a obra da expiação tem inúmeros efeitos sobre nós. Veremos agora os 4 efeitos da expiação, os quais eu mencionei anteriormente que são o sacrifício, a propiciação, a reconciliação e a redenção. “Estes 4 termos mostram como a morte de Cristo satisfez as 4 necessidades que temos como pecadores”.21

a) Sacrifício: Cristo morreu em nosso lugar como substituto e pagou a penalidade da morte que merecíamos por nossos pecados contra Deus (Hb 9.26). 

b) Propiciação: Para que a ira de Deus contra o pecado e contra nós (pecadores) fosse aplacada e removida, Cristo morreu em nosso favor, propicio a nós (1Jo 4.10).

c) Reconciliação: Para que a parede que nos separava de Deus fosse derrubada (Ef 2.14-18), e a barreira que nos impedia de ter comunhão com Deus fosse removida (Is 59.2), era preciso que alguém intervisse em nosso favor, nos reconciliando novamente com Deus (2Cor 5.18-19).

d) Redenção: Como pecadores somos escravos do pecado e de satanás”22 (Jo 8.34; Rm 6.16; Ef 2.2-4), por isso era necessário que alguém nos redimisse dessa escravidão.

Redenção traz a idéia de um resgate, que é “o preço pago para redimir alguém da escravidão ou do cativeiro”23. É de vital importância ressaltar que Cristo não pagou resgate algum a satanás e muito menos ao pecado, e também não digo que foi a Deus, porque não foi Ele que nos manteve na escravidão, mas satanás e nossos pecados.

Cristo comprou e buscou a redenção, e, portanto, nos “é suficiente saber que o preço foi pago e aceito por Deus (a morte de Cristo), e o resultado foi termos sido redimidos da escravidão”.24  

4. A extensão da expiação

A pergunta crucial que envolve a síntese da extensão da obra expiatória é esta: Por quem Cristo morreu? “No lugar de quem Cristo se ofereceu como sacrifício”25? Mediante a esta pergunta, existem inúmeras passagens nas Escrituras referente à morte de Cristo, onde é afirmado que a expiação “aparentemente” foi universal, ou que a morte de Cristo foi por todas ou muitas pessoas ou pelo mundo todo.

No entanto, se analisarmos detalhadamente todo o contexto em geral sobre a questão da morte de Cristo, veremos que a expiação não foi universal, mas foi limitada ou particular. Em outras palavras, Jesus não morreu por todas as pessoas e nem pelo mundo inteiro.

Embora o sangue de Jesus derramado na cruz fosse “suficiente para cobrir os pecados de todos os homens e para satisfazer a justiça de Deus contra todo o pecado, ele efetua a salvação somente aos eleitos”.26 A expiação se reduziu ou foi eficazmente aplicada somente para algumas pessoas a quem Deus escolheu salvar.

Outro fator importante que envolve a extensão da expiação é que ela também abrange os não eleitos, que desfrutam dos benefícios da morte de Jesus, no que se refere as bênçãos físicas e materiais, dentre outras coisas (Mt 5.45). Isto é o que chamamos de “graça comum” ou “providência geral”. 

Outra questão agora está em pauta – Como interpretar as diversas passagens onde é mencionado que Cristo morreu por todas as pessoas e pelo mundo todo?

Tanto os cristãos arminianos quanto os cristãos reformados concordam que “o sangue de Cristo é suficiente, em valor, e que sua morte vicária é de valor infinito aos olhos de Deus, e é eficiente ou eficaz somente em relação aos eleitos. Atualmente, o ponto de vista arminiano da expiação universal não é sustentável.

Não obstante, a única saída dos arminianos para dizer sobre os que rejeitam a Cristo é dizer que a vontade de Deus é frustrada pelo homem, porque Cristo, ao que pressupõe, morreu por todos os homens aos quais Deus quis salvar, porém, não pôde fazê-lo”27, devido ao “livre arbítrio” que o homem possui em escolher ou não se voltar para Deus.

Todavia, sabemos pelas Escrituras que só Deus possui o livre arbítrio, e que esta linha de interpretação contradiz totalmente a doutrina da eleição. Vamos analisar algumas passagens onde os termos muitos e mundo aparecem e comprovar que estes a textos, apesar de favorecer outra interpretação, falam acerca da expiação limitada.

Senão vejamos: (Is 53.4-12; Mt 26.28; Mc 10.45; Jo 1.29; Jo 3.16; Rm 5.7-10; 1Cor 15.3; Gl 1.3-4; Tito 2.14; 1Jo 2.1-2; Hb 2.9; Ap 5.8-9; Mc 4.11-12; Jo 10.11,15, 26-28; Jo 17.6-9, 19-21...)

Conforme estas passagens e várias outras, vemos que “a bíblia utiliza expressões que são universais em forma, mas que não se referem a todos os homens no sentido distributivo e inclusivo.

Palavras como mundo e todos, expressões como cada um e todo homem nem sempre significam, nas Escrituras, todos os membros da raça humana”;28 mas sim, à universalidade e diversidade dos eleitos espalhados por todo o mundo, e à inclusão dos gentios também na obra da expiação.

Nessa mesma linha de pensamento, Ronald Hanko afirma que “o que tais passagens ensinam é que Cristo morreu por todos os homens sem distinção, não por todos os homens sem exceção. Em outras palavras, tais passagens ensinam que Cristo morreu por todos os tipos de homens (1Tm 2.6a), por todos que estão nEle (1Cor 15.22), ou pelo mundo de seu povo, isto é, por seus eleitos de todas as nações”.29

Por isso cai por terra a teoria de que Jesus morreu por todos os homens mesmo que todos não sejam salvos. Seria o mesmo que dizer que a obra de Cristo no projeto da salvação não foi perfeita, sendo assim ineficaz, e que o sangue de Jesus foi derramado em vão por alguns que não o querem. Contudo, seria necessário acrescentar algo a mais para ajudar a Jesus, a saber, a livre escolha do homem. 

Não obstante, a expiação limitada não é um meio que pode vir tornar possível a salvação, mas sim, é um meio que fez, faz e fará possível a salvação de todos os eleitos que foram predestinados para ela por nosso Deus e Pai. Aleluia!

Conclusão
  
5. A perfeição da expiação

Cristo não veio fazer os pecados expiáveis; Ele veio para expiar pecados!

Hebreus 1.3 – Depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da majestade, nas alturas.

Cristo não veio para fazer Deus reconciliável, Ele reconciliou Deus conosco por meio de seu sangue.30

“A expiação é uma obra completa, jamais repetida ou passível de repetição”.31 “Ela é a provisão eterna do amor no coração de Deus”.32 Ela não força nem constrange o amor de Deus; antes, o amor de Deus constrange a expiação, que se fez instrumento para a realização do propósito determinado do amor”.33

A obra expiatória foi perfeita em todos os aspectos e alcançou o seu objetivo. Cristo não morreu por todos os homens! A expiação é limitada! A redenção é particular! Só a noiva eleita de Cristo (a igreja) é o objeto do amor de Deus no plano da salvação”.34  

Efésios 5.25b – Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela...

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Notas:

1.Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism 
2. Duane E. Spencer, TULIP, Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrituras, pág 111-112, Parakletos.
3. Teologia sistemática Wayne Grudem, pág 259.
4. Gise J. Van Baren. Expiação limitada.
5. Dicionário Priberam da língua portuguesa.
6. Gise J. Van Baren. Expiação limitada.
7. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 12.
8. Louis Berkhof. Teologia sistemática, pág 386.
9. Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé.
10. Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 271.
11. NVB.  
12. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 13.
13. Ibid.
14. Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 272.
15. Turretin, Francis. Institutio Theologiae Elencticae, Livro XIV, Q.X; Thornwell, James Henley. “The Necessity of the Atonement”, em Collected Writings, vol II (Richmond, 1886), pág 205-261; Stevenson, George. A Dissertation on the Atonement (Filadélfia, 1832), pág 5-98; e Hodge, A.A. The Atonement (Londres, 1868), pág 217-222.
16. Heber Carlos de Campos. As Duas Naturezas do Redentor, pág 109-110.
17. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 19.
18. Ibid, pág 21.
19- Wayne grudem. Teologia sistemática, pág 273.
20. Ibid, pág 274.
21. Ibid, pág 278, 279.
22. Ibid.
23. Ibid.
24. Ibid.
25. R.C. Sproul. Eleitos de Deus, pág 152.
26. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 55.
27. Duane Edward Spencer. Artigo sobre a Expiação Limitada.
28. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 53.
29. Ronald Hanko. Doctrine according to Glodiness, Reformed free publishing Association, pág 155-156.
30. John Murray. Redenção consumada e aplicada, pág 47.
31. Ibid.
32. Ibid, pág 48.
33. Hugh Martin. The Atonement: in Relations to the Covenant, the Priesthood, the Intercession o four Lord (Edimburgo), pág 19.
34. Duane Edward Spencer. Artigo sobre a Expiação Limitada.

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Fonte: Bereianos
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O uso e abuso da transmissão do culto

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Por Rick Phillips


"De todo o coração renderei graças ao SENHOR, na companhia dos justos e na assembleia" (Salmos 111.1).

Uma das áreas mais populares do site da minha igreja é o link para a transmissão ao vivo que conecta as pessoas ao culto de Domingo enquanto ele está acontecendo. Somos agraciados por podermos possibilitar isso, especialmente para nossos membros que estão doentes em casa, que precisam ficar em casa com seus filhos adoecidos ou que estão em situações similares.

Recentemente, fiquei sabendo até de um membro da igreja que conseguiu assistir ao culto em seu smart phone enquanto estava preso em casa graças a uma falta de luz. Uma quantidade surpreendente de pessoas assiste aos nossos cultos pela internet e nós esperamos que isso esteja abençoando a todos. Ficamos principalmente felizes se não-cristãos conseguem ouvir a voz de Deus e são encorajados a se juntarem conosco presencialmente a partir disso.

Mas mesmo com todas as bênçãos desse tipo de tecnologia, existem algumas limitações importantes para o uso da adoração por vídeo que os cristãos deveriam saber e que nos chamam a fazer um uso sábio desse recurso. De modo simples, nossa transmissão ao vivo é programada para aqueles que não podem vir à igreja e não como um substituto para aqueles que podem vir. Com isso em mente, apontarei algumas razões para o porquê devemos preferir ir aos cultos presencialmente e algumas sugestões para essa prática.

1 - Nossa presença física é essencial para a plena participação na adoração e na vida da igreja. Quando a Bíblia ordena “Congregai-vos” (Hebreus 10.25), isso envolve tanto a nossa presença física quanto espiritual. Não estamos congregando na igreja se a igreja não pode nos ver! Jesus disse que estaria presente onde “estiverem dois ou três reunidos em meu nome” (Mateus 18.20). Sem dúvida, sua intenção tinha o sentido de uma presença física das pessoas com corações compartilhados. É por isso que não devemos nunca prover a participação em sacramentos através dessas transmissões via internet e é por isso que os presbíteros da igreja se reúnem presencialmente e não simplesmente através da internet (note que Mateus 18.20 se dá em uma passagem acerca da disciplina).

2 - Precisamos vir à igreja para podermos contribuir com nossos dons e graças a outros cristãos. O Senhor provê muitas coisas importantes através do encontro semanal da igreja. Por exemplo, os dons espirituais de cada membro são empregados nas mais diversas formas sendo cada uma delas essenciais. Paulo escreveu que “nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (Romanos 12.5). Ele acrescenta que nossos dons espirituais são dados a nós “visando a um fim proveitoso” (1 Coríntios 12.7). Por isso, seus companheiros cristãos precisam da sua presença: para servir, encorajar, escutar, apoiar, rir, abraçar e amar. Nos reunimos no domingo como uma comunidade na igreja e isso requer comunhão! Então, enquanto a transmissão ao vivo é boa para casos excepcionais, ela não deve se tornar a norma para um cristão.

3 - Há uma dimensão autoritativa na pregação da Palavra de Deus que envolve estar sentado fisicamente sob a pregação do púlpito. É uma benção podermos ouvir a voz de Deus mesmo quando não podemos ir à igreja. Ainda assim, ouvir ao sermão fisicamente faz uma diferença significativa na maneira como Deus ministra a sua Palavra.

Deus ordenou que a Bíblia fosse pregada por embaixadores e arautos vivos e a experiência de se estar integralmente sob um púlpito ministerial envolve estar fisicamente presente. A pregação é um evento vivo e comunal e o pregador precisa ver e interagir espiritualmente com a congregação, assim como a congregação precisa ver e interagir espiritualmente com o pregador. É uma benção poder ter boas pregações através de mecanismos eletrônicos e eu te encorajaria a se valer deles, mas nenhum deles é um substituto para se estar presente debaixo de uma ministério pessoal de seu próprio pastor junto de uma igreja no qual você é membro. É por isso que me oponho tanto às “igrejas satélites”, onde um vídeo de um pregador-celebridade é passado à congregação sem ele estar fisicamente presente. E é por isso que você precisa frequentar as pregações de sua própria igreja, mesmo que pregadores melhores possam ser ouvidos pelo rádio ou pela internet. A pregação é uma parte importante da liderança espiritual de um pastor e estar sob essa pregação é uma boa forma de obediência. Hebreus 13.17: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.

4 - Na adoração, precisamos dar toda a atenção para o Senhor, o que é difícil de acontecer quando não estamos fisicamente no santuário da igreja. A experiência no templo é programada para atrair toda a nossa atenção para o Senhor e para a sua Palavra. Fora do templo, especialmente se estamos sozinhos, nós simplesmente estamos mais propensos a não nos entregarmos totalmente a Deus em nossa adoração. Isso se assemelha à minha preocupação quanto ao uso de tablets e smartphones no lugar de Bíblias físicas. Não há nada de errado com uma versão eletrônica das escrituras, mas eu sei que meu próprio smartphone está repleto de distrações eletrônicas para que eu desvie minha atenção de Deus e de sua adoração. Há algo de errado em checar seu email e mensagens durante o sermão? Sim, há. O Salmo 111.1 diz: “De todo o coração renderei graças ao SENHOR, na companhia dos justos e na assembleia”.

Como cristãos, devemos ser os últimos a perdermos nosso senso de pessoa completa como Deus nos criou e não devemos deixar a tecnologia distorcer nossa visão da pessoa humana. Assim, mesmo  estando gratos por fornecermos o culto ao vivo em algumas situações excepcionais, não façamos da exceção a norma e não permitamos que a tecnologia dite nossa experiência espiritual na adoração.

Deixe-me concluir com algumas sugestões relacionadas ao assunto:

1) Quando você estiver viajando durante o Dia do Senhor, faça todo esforço possível para frequentar uma igreja local ao invés de assistir ao culto de sua própria igreja pela internet. Todos os cristãos fazem parte da igreja universal tanto quanto fazem de sua igreja local e essas são boas oportunidades para que nós expressemos e experimentemos nossa participação cristã mais ampla. Deus usa conexões feitas nesses momentos para nos unir em seu trabalho. Mesmo que não haja uma igreja de sua preferência no local, você deve ir na que seria a melhor opção. Vivenciar uma “adoração ruim”, seja como for a forma como nós a definimos, ou uma “pregação diferente” nos acrescentará sabedoria e perspectiva. Seja qual for a experiência, devemos geralmente preferir adoração física na companhia de irmãos crentes do que uma experiência em vídeo com nossa própria igreja.

2) Se você disser para si mesmo “Eu vou só assistir o culto pela internet” ao invés de ir fisicamente à igreja, você estará traindo a si mesmo e, mais importante do que isso, aos seus companheiros crentes. Esse problema (que deve acontecer mais ainda no caso do culto noturno) deve ser evitado o máximo o possível.

3) Quando você estiver em uma conferência ou grande evento em que a transmissão por vídeo é usada para projetar a imagem do pregador, sente-se na frente onde você possa ver ao palestrante diretamente. Eu creio que onde há uma tela grande, meus olhos naturalmente se distanciarão da pessoa de verdade para a imagem do vídeo. Isso reduz o senso de um encontro real com um pregador real e nós devemos evitar isso.

Espero que esse conselho nos faça usar os dons de Deus com sabedoria e responsabilidade. Cristãos devem sempre vigiar acerca de consequências indesejadas e oportunidades para o diabo (Efésios 4.27). A perda da igreja quanto à presença física do povo de Deus é terrível. Que não permitamos que a tecnologia nos transforme de discípulos em consumidores e de uma comunidade da igreja em uma mera fonte de provisão.

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Fonte: Reformation 21
Tradução: Kimberly Anastacio
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Deus não joga xadrez

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Por Ednaldo Cordeiro


Einstein certa vez disse que “Deus não joga dados”, e ao que parece essa frase se eternizou. Hoje eu digo que Deus não joga xadrez. Arminianos, apesar de obstinados, muitas vezes não gostam de ser confrontados no tocante a suas premissas, os que isso fizeram e se mantiveram coerentes com suas crenças tornaram-se teístas abertos.

Por estes dias mantive conversa com um arminiano que não acredita na impecabilidade de Cristo, ou seja, ele acredita que Cristo poderia pecar, para isso ele usou o “se” preferido dos arminianos, o “se quisesse”. Evidentemente a cristologia desse irmão (quero crer que seu posicionamento seja apenas fruto do mau doutrinamento presente na maioria das igrejas atuais) é distorcida, por separar o homem Jesus do Deus Jesus, coisa que é impossível, pois Sua natureza divino-humana é inseparável. Dizer que Jesus poderia pecar é o mesmo que afirmar que Deus pode pecar. Para isso ele raciocina da seguinte forma: “se Jesus não fosse pecável, não poderia representar plenamente o homem, pois todas as suas tentações seriam uma encenação, e a cruz apenas um espetáculo”.

Uma coisa que devemos compreender é que opção não é igual a possibilidade. Se alguém me perguntar: “Cristo, diante das tentações, tinha a opção por pecar?”, responderei que sim, ele tinha esta opção; mas se alguém me perguntar: “Cristo diante das tentações PODERIA pecar?”, a resposta será um retumbante NÃO, Ele não poderia, tanto que não pecou.

Para demonstrar isso vou me disfarçar de arminiano e, ao invés de usar a fórmula calvinista dos Decretos Eternos de Deus, vou usar a fórmula arminiana da presciência. Vou deixar o exemplo de Jesus de lado e passar para o exemplo de Adão, que inclusive alguns calvinistas afirmam ser o único homem a possuir livre-arbítrio, coisa da qual eu discordo.

Um arminiano comum diz “Adão poderia não ter pecado se quisesse”, primeiro essa assertiva é completamente contrária ao arcabouço teológico arminiano.

Vejamos, todos os arminianos afirmam que Deus não interfere nas decisões humanas, mas os deixa livres para fazerem suas escolhas, e ao mesmo tempo afirmam a presciência divina, ou seja, Deus sabe qual será a decisão humana antes mesmo deste fazer sua escolha. Pois bem, pergunto: o que Deus viu Adão fazendo após tomar o fruto proibido das mãos de Eva? Resposta simples e direta: viu ele comê-lo. Pois bem, se Deus viu ou previu Adão comer o fruto, como podemos afirmar que Adão poderia não ter comido? Isso é completamente ilógico, e destrói, ou a suposta liberdade do homem ou a presciência divina.

Agora deixe-me colocar de outra forma, se eu perguntar: “Adão tinha a opção para não pecar?”, sim, ele tinha essa opção, mas de forma alguma ele poderia não comer o fruto pois o seu futuro já estava definido pela presciência. O grande problema é que o homem natural, ao invés de buscar conhecer a Deus mediante as Escrituras, cria um Deus a sua imagem e semelhança, e só aplica atributos divinos presentes nas Escrituras quando deseja defender seu ponto de vista distorcido, como por exemplo, a “eleição por presciência”, mas quando aplicamos a presciência de forma coerente eles pulam fora.

Diante disso a maioria começa a tender para o molinismo. Molinismo é a doutrina criada pelo jesuíta Luis Molina, daí o nome, que defende que Deus não conhece apenas o futuro, mas todas as opções de futuro possíveis. Essa doutrina foi inicialmente criada numa tentativa de conciliar a onisciência divina e o livre-arbítrio humano, porém ela não resolve problema algum, pelo contrário, deixa Deus numa posição de expectativa, pois a priori Ele sabe o que fazer em resposta a determinada decisão do homem, mas efetivamente não sabe que escolha o homem fará. De qualquer forma, reduz Deus a um mero espectador e coloca o homem como o protagonista da história. Por isso o título da postagem, pois num jogo de xadrez é  importante antecipar as jogadas dos adversário para que haja chance de vitória.

Para concluir, numa tentação possuímos duas opções: ceder ou resistir; sabemos qual devemos escolher, mas nunca realmente sabemos o resultado. Adão possuía duas opções, resistir ou ceder à tentação da serpente, sabia que não devia comer do fruto, mas não podia escapar do resultado decretado (ops!) previsto por Deus. Isso simplesmente porque o futuro a Deus, e somente a Ele, pertence. Existem opções? SIM! Existe a possibilidade de agir de forma contrária àquilo que Deus já viu? NÃO!

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Fonte: Internautas Cristãos
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A liberdade é um fantasma?

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Por Sam Storms


O que dizer então da liberdade humana? Para responder essa pergunta, precisamos fazer distinção entre “liberdade de ação” e “livre-arbítrio”. Dizer apenas, sem qualquer qualificação, “que o homem é livre” ou “que o nome não é livre” é fazer uma afirmação simplista e enganosa. Mas dizer que o homem tem liberdade de ação é dizer que ele é livre para fazer o que quer. Se ele quiser rejeitar a Cristo, ele pode. Se ele quiser aceitar a Cristo, ele pode. Em resumo, a vontade humana é livre para escolher o que quer que o coração deseje. Entretanto, sem a interposição da graça divina, ninguém quer ou deseja ter Cristo em seu pensamento ou em sua vida.

Todas as pessoas rejeitam o evangelho de modo livre, voluntário e espontâneo, porque é o desejo de seu coração fazê-lo. A liberdade de uma pessoa consiste na capacidade de agir em conformidade com seus desejos e inclinações, sem que ela se sinta compelida a agir de outro modo por causa de pessoas ou fatores que não são inerentes a ela. Desde que sua escolha seja fruto voluntário do seu próprio desejo, a vontade é livre. Isso é o que tenho em mente quando digo: “Sim, todas as pessoas são agentes morais livres”.

Por outro lado, dizer que uma pessoa tem livre-arbítrio é dizer que ela tem essa mesma capacidade ou poder para aceitar ou rejeitar o Evangelho. É dizer que ela é tão capaz de crer como de descrer, e que essa capacidade brota dela mesma e nasce dela – ou é o resultado da graça preveniente – não obstante o seu estado caído e pecaminoso. Se é isso que você tem em mente quando me pergunta: “O homem é livre?”, minha resposta, ou melhor, a resposta da Bíblia, é “não”. A vontade de uma pessoa é a extensão e expressão invariável da sua natureza. Assim como ela é, ela deseja. A liberdade que uma pessoa tem para agir, desejar ou escolher de modo contrário a sua natureza não é maior do que a liberdade que uma macieira tem para produzir avelãs.

Mas não é fato que Deus dá a cada um de nós a oportunidade de crer? Não é verdade que ele nos confronta com o Evangelho e diz: “Creia para que você possa ter vida”? Sim, Ele o faz. Mas a humanidade sempre, invariável, inevitável e incessantemente, e também prontamente e de maneira voluntária diz “não”. Note bem. Não estou dizendo que, quando confrontada com o Evangelho, uma pessoa não possa exercer sua vontade. Todos nós temos uma vontade e todos somos capazes de exercê-la na tomada de decisões. O que estou dizendo é que, quando confrontados com o Evangelho, não conseguimos desejar corretamente. Não somos impedidos de crer indo contra as nossas vontades. “Quem vier a mim”, declara Jesus, “eu jamais rejeitarei” (João 6.37). O problema, porém, como Jesus diz em seguida, é que “ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair” (João 6.44; grifo do autor).

Por que ninguém pode vir a Jesus a menos que o Pai o atraia?  Será porque o Pai o impede de fazê-lo? Será porque o Pai ou o Filho ou o Espírito colocou um obstáculo ou uma barreira em seu caminho para impedi-lo de ir quando alguém deseja urgentemente fazê-lo? Deus nos livre! Também não é porque a pessoa não tem as faculdades volitivas e intelectuais necessárias para fazer uma escolha positiva. Tampouco é por causa de algum defeito físico que ela repudia o Evangelho.

A razão pela qual ninguém pode ir até Jesus é que ir até Ele não está em nossa natureza. Nossa natureza e, portanto, nossa vontade, é fugir de Cristo, não ir até Ele. O fato – e um fato triste – é que não queremos ir. Nossa satisfação está em não irmos. Escolhemos permanecer em nosso pecado e incredulidade por nosso próprio desejo, liberdade e vontade, porque nada encontramos em Jesus que seja sedutor, atraente, verdadeiro ou represente de algum modo uma melhoria daquilo que já somos e temos por esforço próprio. Se um dia chegássemos ao ponto de querer ir a Cristo para obter vida, poderíamos fazê-lo. De fato, Jesus diz que, com toda certeza o faremos (João 6.37)! Mas esse “querer”, esse “ir”, não vem de nós mesmos, mas de Deus. Isso vem do Pai, que na eternidade passada nos “deu” ao Filho e, no tempo presente, nos “leva” a fé. Dizendo de maneira simples, ninguém, por si mesmo, quer ser salvo. Mas quem quer que, por intermédio do poder de Deus, se disponha a ser salvo, o será! 

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Fonte: Texto extraído do capítulo 4 da obra Escolhidos: Uma exposição da doutrina da eleição.
Selecionado por: Thiago Oliveira
Divulgação: Bereianos

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Providência em tudo da vida

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Por John Frame


A maioria dos cristãos que conheço fala de providência quando algo bom e incomum lhes acontece. Alguém parece arrumar seu pneu, e você chega em seu encontro exatamente no horário marcado. Quando você teme que perderá o pagamento do seu aluguel, um cheque (com precisamente a quantia que você necessita) chega via correio. Você ora pela cura de alguém amado e um pouco depois você encontra um tratamento médico que tem sucesso, quando tudo o mais falhou. Estas coisas acontecem, e nestas ocasiões frequentemente a palavra “providência” aparece em nossas línguas.
  
Assim, providência se torna a alternativa cristã para “sorte”. Quando alguém diz “boa sorte”, alguns cristãos advertirão que não cremos em sorte, mas somente na providência de Deus. Sorte é algo impessoal, um tipo de destino ou acaso. A providência está nas mãos do nosso Deus amoroso.
  
Usar a palavra “providência” para descrever bênçãos divinas especiais e coincidentes é perfeitamente correto. Nós experimentamos tais bênçãos, e providência é tão boa quanto qualquer outra palavra para descrevê-las. Mas deveríamos estar cientes de que a definição teológica de providência é muito mais ampla do que isto. A definição de providência é, certamente, teológica. A palavra é raramente, se é que alguma vez, encontrada nas traduções portuguesas da Bíblia, de forma que o conceito de providência é, até certo ponto, a tarefa de teólogos. Estes teólogos agruparam várias idéias bíblicas sob o nome de providência, e será útil para nós olharmos para tais idéias.
  
O Catecismo Menor de Westminster define providência na resposta à pergunta 11: “As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e ponderosa de preservar e governar todas as suas criaturas, e todas as ações delas”. Primeiro, note que a providência de Deus é universal. Ela se estende a todas as criaturas de Deus e a todas as ações delas. Assim, Efésios 1:11 fala do Deus que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. É correto vermos a mão de Deus nas bênçãos especiais da vida. Mas é importante vermos a mão de Deus em nossas provas, dores e sofrimentos; até mesmo em nossas próprias decisões. A mão amorosa de Deus opera em tudo que acontece comigo e em tudo que faço. Assim, Paulo nos chama a sermos gratos em tudo (1 Tessalonicenses 5:18).
  
Frequentemente ouvimos que deveríamos ser gratos pela misericórdia de Deus em meio aos problemas. Mas é duro ver a mão de Deus em nossas decisões pecaminosas e ignorantes. Reconheçamos, contudo, que a mão de Deus na providência está nestas decisões também. Lembra-se que os irmãos de José o venderam como escravo? Mais tarde ele lhes disse: “Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós” (Gênesis 45:5) e “vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gênesis 50:20). Os irmãos fizeram uma decisão pecaminosa. Mas aquela decisão pecaminosa era parte da providência de Deus, para manter a família de Jacó viva. O relacionamento entre a providência de Deus e o pecado humano é de fato misterioso. Mas é sempre verdade que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). Não deveríamos agradecer a Deus pelo pecado, mas deveríamos agradecê-lo de todo coração por usar o pecado para promover seus bons propósitos.
  
O Catecismo também nos diz que na providência Deus “preserva” e “governa”. Governar aqui não é tanto uma metáfora política quanto é a ideia de um piloto dirigindo um navio a bombordo. Quando Hebreus 1:3 diz que Jesus “sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder”, o retrato não é tanto aquele de Atlas sustentando o mundo sobre os seus ombros, mas de um corredor de revezamento levando um bastão até a linha de chegada. O governo de Deus é um conceito dinâmico, um que dá direção à natureza e história. O progresso do mundo está se dirigindo para um objetivo, para o cumprimento de todos os propósitos de Deus no retorno de Cristo. A história não é apenas uma coisa após a outra. Ela é uma narrativa maravilhosa, que levará a uma conclusão plenamente satisfatória (algumas vezes surpreendente).

“Preservação” é outro aspecto da providência mencionada no Catecismo. Ela significa várias coisas:
  
(1) Deus preserva a existência do mundo. Sem sua permissão (e especificamente aquela de Jesus Cristo), o mundo feneceria (Colossenses 1:17).
  
(2) Deus também preserva o mundo postergando o julgamento final até seus propósitos serem completados. Assim, ele prometeu a Noé que não destruiria o mundo através de outro dilúvio (Gênesis 8:21-22). Até então, os dias e estações sucederam um após o outro de uma maneira regular. Um dia, certamente, haverá outro desastre – desta vez com fogo (2Pedro 3:7) – como nos dias de Noé, quando Deus virá no julgamento final. Entre o dilúvio e o julgamento, contudo, Deus se detém. Por que? Para dar tempo à igreja, para que esta pregue o Evangelho a todo o mundo, e dê a oportunidade para pessoas se arrependerem de seus pecados e se voltarem para Cristo (2Pedro 3:9).
  
(3) Preservação também se refere ao modo como Deus nos protege do perigo durante todas as nossas vidas. Como Deus usou o pecado dos irmãos de José para providenciar alimento para eles no Egito, assim Deus regularmente “preserva o fiel” (Salmos 31:23). Outro Salmo diz “que [ele] preserva com vida a nossa alma e não permite que nos resvalem os pés” (Salmos 66:9). Isto é o que usualmente pensamos quando usamos o termo “providência”. Ela inclui todas as coincidências preciosas às quais me referi no começo deste artigo. Deus frequentemente intervém e nos resgata, quando mais precisamos de sua ajuda. Certamente, este tipo de providência tem um limite. A menos que vivamos até o retorno de Cristo, nós todos morreremos. Mas, certamente, até mesmo então a mão de Deus nos sustenta. Se você pertence a Cristo, nem mesmo a morte pode te arrebatar da mão de Deus (João 10:29). O Senhor cumpre sua promessa de vida longa (Efésios 6:3), ultimamente, na vida eterna. E esta vida eterna começa na vida presente. Todo mundo que confia em Cristo já possui a vida eterna (João 5:24).

Assim, a providência envolve muito mais do que algumas vezes pensamos. Sim, Deus nos dá pequenas surpresas durante a vida, e é uma bênção maravilhosa saber isso. Mas a providência também se estende a tudo o que acontece. Ela abarca todo o tempo e espaço. Ela nos conduz desde a criação até a eternidade futura. Tal providência merece nosso louvor extasiado: “Aleluia! Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua misericórdia dura para sempre” (Salmos 106:1).

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Fonte: Monergismo
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
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Devemos ensinar publicamente a predestinação?

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Por Thomas Magnum


É inegável que os reformados, também conhecidos como calvinistas, são conhecidos pela crença na predestinação incondicional. Muitos até acham que esse foi o tema mais abordado pelo reformador João Calvino, na verdade Calvino falou mais em oração e vida cristã do que na doutrina da predestinação e isso é facilmente observado nas Institutas e em seus comentários, principalmente o dos Salmos. 

Lembro a primeira vez que tive contato com a doutrina da eleição, foi lendo um sermão de Spurgeon sobre o assunto, fiquei estarrecido, assombrado e maravilhado com a grandeza e soberania de Deus. Os efeitos da doutrina da eleição em minha vida foram de sede, temor e adoração. Embora muitos defendam e creiam nessa verdade bíblica contida na Palavra de Deus, existe muita resistência quanto a ensina-la na igreja. Muitos ministros e líderes que professam sua crença confessional temem falar sobre isso nos cultos públicos, achando que é uma mensagem difícil ou dura demais para o povo ouvir.

Nos dias de Agostinho havia alguns franceses que deram início a essa questão, muitos se viam perturbados com a doutrina da eleição. O motivo não era que a doutrina fosse falsa em algum ponto, mas, achavam que a doutrina era perigosa e ofensiva, optando por suprimi-la e não coloca-la em evidência. Hoje também temos grupos que preferem não falar sobre o assunto, ainda que sua confissão denominacional professe a predestinação, para evitar contendas e dissenções. Creem que isso é preferível para preservar a unidade da igreja e a tranquilidade da consciência. Com isso é comum observarmos que muitos chamam a doutrina da eleição de crença secundária. A verdade de Deus não pode ser secundária e nem pode ser ofuscada por tolices humanas que se tornaram um clichê que, em vez de edificar, macula e detém o crescimento dos santos.  

Ao analisarmos essa questão biblicamente, veremos que ela não se sustenta perante o ensino das Escrituras Sagradas. Em sua despedida dos irmãos de Éfeso o apóstolo Paulo nos diz:

Vocês sabem que não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa. Atos 20.20 NVI

Podemos observar que todo o desígnio de Deus foi ensinado por Paulo como diz outra versão. Devemos nos submeter ao que a Escritura diz, toda a Palavra deve ser pregada (Tota Scriptura) e ensinada ao povo. Lemos ainda em 2Timoteo 3.16,17:

Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.

O Texto já fala por si mesmo, a Palavra de Deus é divinamente inspirada e para que? Para tornar o homem perfeito e isso vem pelo ensino e exposição das Escrituras. Em outro lugar observamos o objetivo da predestinação:

Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8.29

O objetivo da eleição é para sermos conforme a imagem de Jesus. Logo, se a doutrina da eleição nos leva a sermos semelhantes a Cristo, porque não ensina-la? Ainda tomando mais um texto bíblico observamos o Senhor dizendo: 

Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” João 17.17

Toda a Palavra de Deus é verdade, não uma parte dela. E Paulo nos adverte que a Igreja de Deus é a coluna e firmeza da verdade (I Timóteo 3.15), se somos baluarte da verdade se somos coluna e firmeza da verdade, temos que pregar a verdade, como lemos em João 17, a Palavra de Deus é a verdade e ela fala da predestinação. Como Paulo disse em Éfeso temos que dizer também: “pregamos todo o desígnio de Deus”. Logo, se a Escritura é a verdade, e a verdade liberta o homem (João 8.36) e essa verdade ensina a predestinação, devemos pregar publicamente. O teólogo Fraçois Turretini diz:


Daí crermos que essa doutrina não deve ser totalmente suprimida com base numa modéstia irracional, nem ser esquadrinhada curiosamente com presunção temerária. Antes, deve ser ensinada sóbria e prudentemente com base na Palavra de Deus, de modo que evitem os rochedos traiçoeiros: de um lado, o rochedo da “ignorância fingida”, que nada deseja ver propositadamente se cega para as coisas reveladas; do outro, o rochedo da “curiosidade injustificada”, que se ocupa em ver e entender tudo, até mesmo os mistérios. Destrói-se o primeiro, que (pecando por falta) crê que devemos abster-nos da proposição dessa doutrina, e o segundo, que (pecando por excesso) deseja fazer tudo com esse mistério escrupulosamente acurado (exonychizein) e acredita que nada dela deve ser deixado de lado sem ser posto a descoberto (anexereuneton). Contra ambos, declaramos (com os ortodoxos) que a predestinação pode ser ensinada com proveito, contanto que isso seja feito sobriamente, com base na Palavra de Deus. [1]

Jesus ensinou a doutrina da predestinação: 

Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Mateus 25.34

Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós não as escutais, porque não sois de Deus. João 8.47

Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.” João 15.16

Paulo ensinou:

Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou. Romanos 8.29,30

Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo.” Efésios 1.4,5,9

Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos. II Timóteo 1.9

Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo. I Tessalonicenses 5.9 

Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do SENHOR, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade. II Tessalonicenses 2.13

Ver também Romanos 9 todo o capitulo.

Pedro ensinou: 

Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar.” Atos 2.39 

Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas. I Pedro 1.2

Lucas ensinou: 

E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam designados para a vida eterna. Atos 13.48

Thiago Ensinou: 

Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. Thiago 1.17,18

João Ensinou:

Saúdam-te os filhos de tua irmã, a eleita. Amém.” II Jo 13

A doutrina da predestinação é um santo ensinamento da Palavra de Deus, por isso o tema deve ser pregado e ensinado com santo zelo e prudência. Calvino é acusado por muitos desconhecedores da doutrina bíblica e da história da igreja de ter criado a doutrina da predestinação, acabamos de ver que isso não é verdade, a Bíblia ensina o assunto abundantemente, vale notar que só nos atemos ao Novo Testamento, pelo foco do texto que é sobre a exposição da doutrina na igreja. Agostinho bem antes de Calvino abordou o tema de forma volumosa também. No entanto, vale citarmos o reformador: 


Quando homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. [2] O fundamento de nossa vocação é a eleição divina gratuita, pela qual fomos ordenados para a vida antes que fôssemos nascidos. Desse fato depende nossa vocação, nossa fé, a concretização de nossa salvação. [3] 

Portanto, fica para nós o conselho de Paulo a seu filho na fé Timóteo:

Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina.  II Timóteo 4 . 2

Sola Scriptura, Tota Scriptura.

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Notas:
[1] Compêndio de Teologia Apologética, François Turretini. Ed. Cultura Cristã
[2] Institutas da Religião Cristã, João Calvino. Ed. Unesp
[3] Exposição de Gálatas, João Calvino. Ed. Fiel

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Fonte: Bereianos
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